Por dentro das #TecABCnaCaatinga: Sistema de Plantio Direto

Patricia Ciancio Anne Clinio | 10 de novembro de 2021

Sistema de Plantio Direto reduz emissão de GEE, diminui custos de produção e melhora o solo

“O SPD é uma das tecnologias que mais têm apoiado o Brasil a se consolidar como um dos grandes atores mundiais quando se fala em agricultura de baixa emissão de carbono”, diz especialista da Embrapa

O Sistema de Plantio Direto (SPD) existe há mais de meio século no Brasil, e nesse tempo, quanto mais se estuda a tecnologia – que atualmente integra o Plano ABC -, mais se descobre os seus benefícios. O SPD não só reduz as emissões de gases de efeito estufa, mas também ajuda o agricultor a produzir e melhorar a qualidade do seu solo.

No entanto, para avançar na adoção desta tecnologia, sobretudo na agricultura familiar, é preciso romper paradigmas. Um deles é a crença de que é preciso realizar o preparo do solo para o plantio. Além disso, alguns gargalos para implantar o SPD são a falta de assistência técnica especializada e a capacitação dos pequenos e médios agricultores.

Nesta entrevista, o chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Algodão, o pesquisador João Henrique Zonta, explica em detalhes essa tecnologia para  o Especial #TecABCnaCaatinga, do PRS Caatinga. Para Zonta, “o SPD é uma das tecnologias que mais têm apoiado o Brasil a se consolidar com um dos grandes atores mundiais quando se fala em agricultura de baixa emissão de carbono”.

Segundo Zonta, o sistema traz benefícios para toda a comunidade. “Mesmo o mercado local pode se beneficiar da maior adoção desta tecnologia, pois teríamos uma maior estabilidade na produção agrícola, e consequentemente, maior oferta de produtos, com maior qualidade e menor custo”, afirma o especialista.

 

PRS Caatinga – O Sistema de Plantio Direto (SPD) é uma tecnologia interessante para a conservação do solo, essencial para garantir a sua fertilidade. Que técnicas são utilizadas nesse sistema e por que é considerado uma tecnologia de baixo carbono?

João Henrique Zonta O SPD é composto por três princípios básicos: ausência ou mínimo revolvimento do solo, cobertura com palhada e rotação de culturas. É considerada uma tecnologia de baixo carbono por vários motivos, sendo os principais o acúmulo de matéria orgânica no solo, com o passar do tempo, em consequência da decomposição da palhada formada na superfície do solo e das raízes das culturas. Ou seja, as plantas captam CO2 na atmosfera, transformam em carbono orgânico, e este fica acumulado no solo, que funciona como um dreno de CO2 em longo prazo.

Pelo fato de o SPD ser uma prática conservacionista, protege o solo da erosão, que também é responsável por perdas de CO2 para a atmosfera. O não revolvimento do solo também evita a degradação rápida da matéria orgânica do solo e a liberação de gases de efeito estufa. O SPD pode ainda proporcionar uma economia de cerca de 60 a 70% no consumo de combustível, visto que são eliminadas as operações de preparo do solo (aração e gradagem), nas quais o consumo de combustíveis fósseis pelos tratores é elevado, colaborando, desta forma, para a redução de gases de efeito estufa na atmosfera.

 

PRS Caatinga – No Brasil, o SPD é utilizado na agricultura desde a década de 70. De lá para cá, o que mudou e o que foi aprimorado?

João Henrique Zonta  Muitos avanços existiram desde o início do uso do SPD no Brasil. Dentre os mais importantes, podemos citar o maior conhecimento sobre a dinâmica da fertilidade do solo em áreas de SPD. O não revolvimento do solo influencia na dinâmica de nutrientes; o desenvolvimento e a adaptação de várias espécies de plantas de cobertura, usadas em rotação, e para a formação de palhada, o desenvolvimento de herbicidas seletivos, facilitando o manejo de plantas daninhas e, ainda, o desenvolvimento de máquinas e implementos mais modernos, destinados ao SPD, tanto para grandes como para pequenas áreas, o que tem facilitado a maior adoção desse sistema nos últimos anos.

 

Cultivo de milho sobre palhada de braquiária, município de Alagoinha, Paraíba (Imagem: João Henrique Zonta)

 

SISTEMA DE PLANTIO DIRETO – SPD

Características: Conjunto de técnicas agrícolas que objetivam não revolver o solo, evitando a perda de carbono e aumentando a produtividade da plantação. As principais técnicas agrícolas desta tecnologia são: o recobrimento permanente do solo, a rotação de culturas e a semeadura direta. No SPD, o recobrimento do solo é feito com os restos de uma das culturas usadas na rotação e a semeadura ocorre sem preparo do solo e com a presença desses resíduos vegetais.

Funções: Melhoria das condições de fertilidade, do condicionamento físico e da umidade do solo, e diversificação do sistema produtivo, aumentando a eficiência do uso de fertilizantes e corretivos.

Fonte: TAVARES, Bruna G.; GUIMARÃES, Giselle P.; ANTUNES, Vanina Z. Tecnologias Agrícolas de Baixa Emissão de Carbono no Brasil e no Bioma Caatinga. Relatório Técnico. Projeto Rural Sustentável Caatinga (PRS Caatinga). Rio de Janeiro: Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), 2020.


PRS Caatinga
– Como o SPD pode contribuir para o aumento da produção agrícola ao mesmo tempo que preserva o solo? De que forma o SPD ajuda a consolidar uma economia de baixa emissão de carbono na agricultura?

João Henrique Zonta – O SPD promove a longo prazo a melhoria das características físico-químicas do solo, além de promover maior infiltração e retenção de água no solo, diminuição da infestação de plantas daninhas e doenças, com consequente aumento da produtividade das áreas agrícolas. Tudo isso aliado à proteção do solo contra a erosão hídrica, responsável pela perda do solo e sua consequente degradação.

Por ser uma prática já consolidada e com resultados positivos, tanto em produtividade como em fixação de carbono no solo, o SPD é uma das tecnologias que mais têm apoiado o Brasil a se consolidar como um dos grandes atores mundiais quando se fala em agricultura de baixa emissão de carbono.

 

PRS Caatinga – Quais são os requisitos para implantar o Plantio Direto e como se dá a relação custo-benefício, no caso do pequeno e médio agricultor?

João Henrique Zonta – O SPD pode ser instalado em qualquer área, independentemente do tipo de solo e tamanho da área. O importante é que antes de se iniciar o cultivo em SPD, o produtor “construa” um perfil inicial de solo adequado. É importante, por exemplo, observar se não existem camadas compactadas, causadas geralmente pelo uso excessivo de arado e grade. Caso existam, é necessário que seja realizada a subsolagem, visto que após a implantação do SPD, o solo não deverá mais ser revolvido. Outra operação importante é a calagem, que dependendo do tipo de solo e dose de calcário recomendada, e se existir alumínio em camadas mais profundas, é necessário neste primeiro momento que o calcário seja incorporado.

Outro requisito importante é que o agricultor tenha disponível os implementos adaptados para o plantio direto, principalmente a semeadora, que possui peças específicas para o corte da palhada e abertura do sulco de plantio em solo não revolvido. Importante salientar que existem semeadoras para plantio direto de todos os portes, que atendem ao grande, médio e pequeno produtor. É importante também que o produtor tenha outros implementos como pulverizadores ou rolo faca para dessecação da palhada, e que tenha conhecimento e treinamento para o manejo desse sistema, que requer um pouco mais de tecnologia se comparado ao cultivo convencional.

Outro requisito importante para o sucesso da implantação do SPD é que o produtor trabalhe com rotação de culturas, e que busque maximizar a produção de palhada na superfície do solo. Em regiões com estações chuvosas mais curtas, uma das opções de cultivo para formação da palhada é o uso do sistema integração lavoura-pecuária, por exemplo, com adoção do sistema Santa Fé, no qual cultiva-se milho ou sorgo e braquiárias integrados em uma mesma área, e após a colheita do milho, tem-se a braquiária implantada na área, que na safra seguinte, pode ser dessecada para produção de palhada.

O maior desafio para implantação do SPD é a quebra de paradigma do produtor mais tradicional, que ainda acredita que é necessário preparar o solo antes do plantio, para “afofar” o solo, além da falta de conhecimento no uso de herbicidas e manejo do sistema como um todo. Quando se fala em pequenas propriedades, um dos gargalos para implantação do SPD é o acesso dos produtores a máquinas e implementos, visto que pelo baixo poder aquisitivo, muitos não têm condições de adquiri-los.

Para a região Semiárida, um dos grandes desafios é também a produção de palhada para cobertura do solo, devido à curta estação chuvosa a cada safra, e às altas temperaturas e radiação solar, que provocam uma rápida degradação da matéria orgânica.

 


 

PRS Caatinga – Quais os maiores desafios para implantação do SPD na Caatinga e o que há de exemplos bem sucedidos no bioma?

João Henrique Zonta Como citado anteriormente, os maiores desafios para a implantação do SPD na Caatinga estão na formação de palhada para cobertura do solo, consequência da curta estação chuvosa e altas temperaturas e insolação, que degradam rapidamente a matéria orgânica. Uma das formas de resolver essa questão é através da combinação do SPD com o cultivo em sistemas integrados, como o plantio de milho, sorgo, milheto, integrado com capins, que nesse caso, são cultivados exclusivamente com o objetivo de produção de palhada.
Outro grande desafio é a quebra de paradigma sobre a não necessidade de preparo do solo para plantio, aliado à falta de acesso dos produtores, principalmente na agricultura familiar, a tecnologias, como máquinas e implementos adaptados para o cultivo em SPD. A falta de assistência técnica e capacitação dos agricultores também é um desafio a ser vencido.

Existem várias pesquisas que mostram que o SPD pode ser implantado com sucesso na região da Caatinga, que vão desde o cultivo de hortaliças, frutas irrigadas, grãos e fibras, como o algodão, em rotação de culturas, principalmente com a adoção conjunta de sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Apesar disso, sabe-se que nesta região a adoção do sistema SPD ainda é pequena, devido aos fatores citados anteriormente. Segundo dados do IBGE, em 2017, na região Nordeste, existiam 3,3 milhões de hectares cultivados com SPD, porém, sabe-se que a grande maioria dessa área está em áreas do Matopiba (Maranhão, Piauí e Bahia), com clima e solo típicos de Cerrado.

A maior adoção do SPD pelos agricultores familiares seria extremamente benéfica para a região Semiárida, pois, além da questão de contribuir para o sequestro de carbono e ajudar na mitigação do efeito estufa, a adoção do SPD auxilia no melhor aproveitamento da água de chuva, conservação do solo e água, melhoria na fertilidade do solo, com consequente aumento da produtividade e principalmente, a sustentabilidade da produção a médio e longo prazo.

A introdução de práticas de manejo conservacionista como o SPD beneficia não só o produtor, mas, se adotado em larga escala, beneficia toda a bacia hidrográfica, pois melhora a infiltração de água no solo, diminui a erosão e escoamento superficial, por consequência, auxilia no controle do assoreamento de cursos d’água e reservatórios, e aumento no abastecimento dos lençóis freáticos, contribuindo para a manutenção da vazão nos cursos d’água ao longo do ano. Mesmo o mercado local pode se beneficiar da maior adoção do SPD, pois teríamos uma maior estabilidade na produção agrícola, e consequentemente, maior oferta de produtos, com maior qualidade e menor custo.

 

Cultivo de gergelim sobre palhada de braquiária, região de Alagoinha, Paraíba (Imagem: João Henrique Zonta)

 

PRS Caatinga – Quais as vantagens e desvantagens do SPD, o que existe de fomento à prática, e há algum incentivo especialmente no contexto da agricultura familiar?

João Henrique Zonta Podemos citar como principais vantagens do SPD a redução dos custos de produção; o aumento da atividade biológica e da estabilidade da estrutura do solo; o aumento da matéria orgânica; a eliminação ou redução das operações de preparo do solo; a redução do uso de herbicidas; a redução do uso inseticidas e fungicidas; o aumento da produtividade das lavouras, devido a eficiência no uso de fertilizantes; a maior disponibilidade de água no solo, pela maior infiltração da água das chuvas; a redução da erosão, devido à proteção da palhada.

As principais desvantagens do SPD são a necessidade do uso de máquinas específicas, principalmente semeadoras, possível aumento no uso de herbicidas nas fases iniciais de implantação, o que ocasiona em muitos casos, a depender da área, um alto custo inicial de implantação do sistema, tanto com relação a gastos com aquisição de máquinas, como com aquisição de herbicidas, fertilizantes e corretivos do solo.

 

 

VANTAGENS

DESVANTAGENS

  • Redução dos custos de produção.
  • Aumento da atividade biológica e da estabilidade da estrutura do solo.
  • Aumento da matéria orgânica.
  • Eliminação ou redução das operações de preparo do solo.
  • Redução do uso de herbicidas.
  • Redução do uso inseticidas e fungicidas.
  • Aumento da produtividade das lavouras, devido à eficiência no uso de fertilizantes.
  • Maior disponibilidade de água no solo, pela maior infiltração da água das chuvas.
  • Redução da erosão, devido à proteção da palhada.
  • Necessidade do uso de máquinas específicas, principalmente semeadoras.
  • Possível aumento no uso de herbicidas nas fases iniciais de implantação, o que ocasiona em muitos casos, a depender da área, um alto custo inicial de implantação do sistema, tanto com relação a gastos com aquisição de máquinas, como com aquisição de herbicidas, fertilizantes e corretivos do solo.

 

Conheça nosso entrevistado

João Henrique Zonta – Pesquisador da Embrapa desde 2011, atualmente é chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Algodão. Tem experiência na área de engenharia de água e solo, com ênfase em modelagem de infiltração de água no solo e irrigação, manejo e conservação de solos, integração lavoura-pecuária e agricultura de precisão.