TecABC na Caatinga: inovações e saberes sustentáveis 

Patrisia Ciancio | 27 de outubro de 2021

PRS Caatinga produz série informativa sobre Tecnologias de Baixo Carbono na Caatinga: toda semana uma entrevista

Renata Barreto, coordenadora científica do PRS Caatinga

Renata Barreto, coordenadora científica do PRS Caatinga

O Especial #TecABCnaCaatinga irá apresentar as principais Tecnologias Agrícolas de Baixo Carbono, inovações que conciliam produção de alimentos com a preservação ambiental. A série vai trazer entrevistas com pesquisadores que dialogam com as especificidades locais e o conhecimento acumulado na convivência com o semiárido. Nossa primeira convidada é Renata Barreto, coordenadora científica do PRS Caatinga e doutora em Geociências.  

 

Quando as Tecnologias Agrícolas de Baixa Emissão de Carbono (TecABC) aportam na Caatinga e alcançam a agricultura familiar, abre-se uma perspectiva de popularização de técnicas inovadoras entre os pequenos e médios produtores locais, com modernizações já incorporadas na agricultura de escala industrial. Essa chegada cria ainda uma oportunidade de intercâmbio entre as práticas tradicionais e culturais do bioma e as inovações científicas – uma mistura eficaz para mitigar a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE).

A difusão das TecABC entre produtores rurais do semiárido é uma das iniciativas do PRS Caatinga. Por isso, a coordenadora Científica do projeto, Renata Barreto, Doutora em Geociências, defende uma maior representatividade da Caatinga na política pública brasileira.

– A maior parte da produção de alimentos na Caatinga não entra no modelo industrial, porque a prática da agricultura familiar é de subsistência, e o seu excedente é comercializado em mercados locais. Esse modo de produção é resultado de práticas consolidadas, que as pessoas levaram a vida inteira realizando, a partir da convivência com o semiárido -, disse Renata .

A especialista complementa ainda dizendo que as tecnologias sociais, muito utilizadas pelos produtores da Caatinga, viabilizam a atividade agrícola em um ambiente com grande escassez hídrica e variação climática significativa. Segundo Renata, esse conjunto de conhecimentos é extremamente importante para os novos cenários que a humanidade vai enfrentar com as mudanças climáticas.

“Temos muito a aprender com o povo da Caatinga e sua capacidade de adaptação. A Caatinga não pode mais ser um bioma invisível. Ainda é comum a percepção de que na Caatinga a vegetação é pobre pelo seu aspecto seco, quando, na realidade, ela é altamente adaptada às variações climáticas. Muita gente não sabe que, quando cai a chuva, a vegetação já estará toda verde no dia seguinte”, enfatizou a especialista.

 

Redução de Gases de Efeito Estufa (GEE)

São exemplos de práticas que podem ajudar a reduzir as emissões de carbono, já desenvolvidas na Caatinga, a Agroecologia e os Sistemas Agroflorestais (SAF); pela analogia de seus métodos com os ecossistemas naturais. O PRS Caatinga entende que a combinação das tecnologias sociais de convivência com o semiárido – fruto do empirismo dos agricultores na lida com o clima – com as Tecnologias Agrícolas de Baixa Emissão de Carbono podem elevar o nível de produtividade e sustentabilidade do bioma.

Em um contexto de práticas já orientadas para o desenvolvimento sustentável, o PRS Caatinga está fomentando a adoção das TecABC por parte de pequenos e médios produtores rurais no semiárido. Para tal, investe no fortalecimento de Arranjos Produtivos Locais (APLs) rumo a uma agricultura de baixo carbono em 37 municípios de cinco microrregiões nos estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco, Piauí e Sergipe. Além disso, o PRS Caatinga está formando, por meio de parceria entre a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e  a Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), 600 especialistas para disseminar as TecABC no semiárido brasileiro.

 

Mas afinal, o que são as TecABC?

As Tecnologias Agrícolas de Baixo Carbono são aquelas capazes de reduzir as emissões de GEE, minimizando os efeitos das mudanças climáticas. Além disso, promovem a melhor conservação da água e do solo, aproveitando melhor seus nutrientes, evitando a erosão e diminuindo os riscos de desertificação.

 

A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta é uma estratégia de produção que agrega dois ou mais componentes produtivos (lavoura, pecuária, floresta) em uma mesma área para incrementar e conservar o aporte de matéria orgânica n solo, proteger contra a erosão, restabelecer a circulação de nutrientes, entre outros benefícios.
O Manejo Sustentável de Florestas se refere a administração da floresta de forma sustentável visando gerar benefícios ambientais (manutenção de serviços ecossistêmicos), econômicos (comercialização de produtos florestais) e sociais (melhoria da qualidade de vida da população). Na Caatinga, é muito utilizado para garantir alimento para a pecuária nos períodos de estiagem por meio das técnicas de raleamento, rebaixamento e enriquecimento.
A Fixação Biológica de Nitrogênio trata do enriquecimento de sementes com agentes inoculantes para aumentar a capacidade das bactérias presentes nas raízes em converter o nitrogênio atmosférico em alimento disponível para as plantas. A FBN supre a necessidade das culturas por nitrogênio e aumenta a resistência aos estresses ambientais.
A Recuperação de Áreas Degradas com Florestas se refere ao plantio de árvores para a preservação e o regaste das funções ecológicas promovidas por florestas ou desenvolvimento de uma economia florestal com a  diversificação de produtos (extrativistas, madeireiros) e aumento da renda. Na Caatinga, o RAD-F é conhecido como recaatingamento.
O Manejo de Dejetos Animais consiste no gerenciamento adequado do esterco dos  animais na pecuária, considerando a coleta, armazenamento, tratamento e utilização agrícola sustentável. Por meio da compostagem ou do uso de biodigestores, é possível transformar estes resíduos em biogás e fertilizante.
Por meio da por meio de recuperação, renovação ou reforma, a Recuperação de Áreas Degradas com Pastagens objetiva melhorar a capacidade de produzir alimento para os rebanhos em pastagens que perderam vigor e produtividade.
O Sistema de Plantio Direto se refere a um conjunto de técnicas agrícolas que   melhoram as condições de fertilidade, o condicionamento físico e umidade do solo para aumentar a produtividade. Baseia-se no recobrimento permanente do solo, rotação de culturas e semeadura. É a TecABC menos representativa na Caatinga por conta da prioridade dos produtores em usar a palhada na alimentação de ruminantes.