Por dentro das #TecABCnaCaatinga: Conheça o sistema ILPF

Patricia Ciancio Anne Clinio | 3 de novembro de 2021

O sistema Integração Lavoura-Pecuária-Floresta – ou apenas ILPF – permite produção mais eficiente e maior sustentabilidade

O sistema Integração Lavoura – Pecuária – Floresta (ILPF) atua em benefício do meio ambiente e do agricultor. Para falar sobre o tema, o PRS Caatinga convidou a pesquisadora Salete Alves De Moraes, da Embrapa Semiárido, para participar da série #TecABCnaCaatinga, que reúne estudiosos na disseminação de conhecimento sobre as Tecnologias Agrícolas de Baixo Carbono e seu potencial no bioma.

Nesta entrevista, a pesquisadora destaca que o ILPF pode resultar em uma produção mais eficiente e sustentável, fazendo também alguns alertas, como o fato de que hoje, no Brasil, estima-se que aproximadamente 70 a 80% das pastagens apresentam algum grau de degradação. Confira o que a especialista tem a dizer sobre o assunto.

 

 

PRS Caatinga – A tecnologia ILPF é uma das indicadas no Plano ABC. Do que se trata e como a sua adoção se relaciona com as mudanças climáticas?

Salete De Moraes De acordo com o conceito do “Marco Referencial Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF)”, esta tecnologia é uma estratégia de produção que integra diferentes sistemas produtivos, agrícolas, pecuários e florestais dentro de uma mesma área. Pode ser feita em cultivo consorciado, em sucessão ou rotação, de forma que haja benefício mútuo para todas as atividades. Em resumo, a integração traz benefícios pelo aumento da complexidade e da diversidade dos sistemas de produção.

A sua adoção permite produzir de maneira mais eficiente e sustentável. As várias modalidades de ILPF permitem cultivos que produzem baixas emissões de carbono, como a introdução de leguminosas e gramíneas em cultivos consorciados e rotacionados, introdução de árvores nas pastagens etc – o que é importante em regiões que se caracterizam com altos riscos climáticos como a Caatinga.

 

Tipos de ILPF / SAF, a partir de seus componentes base.

Legenda: 

  • ILP – Integração lavoura-pecuária ou sistema agropastoril;
  • ILF – Integração lavoura-floresta ou sistema silviagrícola;
  • IFP – Integração floresta-pecuária ou sistema silvipastoril
  • ILPF – Integração lavoura-pecuária- floresta ou sistema agrossilvipastoril

 

PRS Caatinga – Como essa tecnologia se aplica no Brasil e especialmente na Caatinga? 

Salete De Moraes A adoção de sistemas integrados destinados a recuperar pastagens ou até mesmo manter sistemas produtivos complexos para o aumento da conservação e resiliência é uma estratégia antiga. Desde a década de 70, com a difusão do Sistema de Plantio Direto (SPD) no Sul do Brasil, a implementação de sistemas integrados vem crescendo e se diferenciando em modelos customizados para as diferentes regiões do país, inclusive em áreas de semiárido, onde são mais complexos e resilientes.

Por conta do risco climático cada vez mais crescente, e sabendo que regiões de clima árido e semiárido são as que vão sofrer maiores impactos, a adoção de sistemas complexos, sustentáveis e resilientes são imprescindíveis para garantir a produção agrícola sustentável nestas regiões. 

 

 

 “Moraes (2020) e Rodrigues (2020) recomendam que as TecABC estejam integradas às tecnologias sociais, principalmente aquelas de acesso à água, pois isso é uma necessidade de sobrevivência para o agricultor da Caatinga. Nesse contexto, as estratégias de conservação de solo e de água, tais como a cobertura e menor revolvimento do solo e o uso de terraceamento, precisam ser consideradas e podem contribuir para menores perdas de solo e para ampliar o acúmulo de água em barreiros (pequenos açudes), por exemplo.”

Saiba mais: Tecnologias Agrícolas de Baixa Emissão de Carbono no Brasil e no Bioma Caatinga – Cadernos PRS Caatinga, 2020

 

 

PRS Caatinga – O que é o sistema CBL? Há necessidade de adaptação e existe uma área mínima para implantar o CBL?

Salete De Moraes O sistema CBL (Caatinga – Buffel – Leucena) foi desenvolvido originalmente pelo Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semiárido (CPATSA) da Embrapa, em 1995, com o intuito de aumentar os índices produtivos e manter áreas de pastagem nativa, preservando dessa forma as áreas de Caatinga. Atualmente, esse sistema tem sido revisto e algumas ações de aumento da complexidade passaram a ser recomendadas, como a inserção de árvores nas áreas de pastagem cultivadas e o aumento da diversidade das forragens resistentes aos déficits climáticos.

Para implantar o sistema CBL, inicialmente o produtor precisa decidir qual categoria e a quantidade de animais que deseja criar, exatamente pela questão do manejo adequado da taxa de lotação. Por outro lado, existem as áreas de pastagem nativa e as de produção de forragens.

 

SISTEMA CAATINGA-BUFFEL-LEUCENA – CBL

Consiste na produção de bovinos azebuados, utilizando a vegetação natural de Caatinga (C), no período de 2 a 4 meses, em que esta oferece o máximo em termos de oferta quantitativa e qualitativa de forragem, associada a uma área de capim-buffel (B), com piquetes contíguos de uma leguminosa arbustiva (L). Principais características:

  • Utiliza a Caatinga como um dos seus componentes
  • Utiliza pastos tolerantes à seca, em sistema rotacional, para complementar a alimentação volumosa do rebanho no restante do ano
  • Utiliza feno e silagem produzidos a partir de bancos de proteína/energia para suplementar a alimentação dos animais nos períodos críticos
  • Mantém uma reserva estratégica de espécies forrageiras de alta tolerância às secas mais severas para assegurar, nestes períodos, um nível satisfatório de produtividade do rebanho
  • Funciona como um subsistema capaz de se adequar e interagir com os demais componentes da unidade produtiva, dentro da diversidade agroecológica e socioeconômica observada no semiárido.


PRS Caatinga
– Quais são as vantagens e desvantagens da aplicação do ILPF no formato CBL na Caatinga?

Salete De Moraes Quando o CBL foi concebido, se falava muito pouco sobre sistemas integrados na Caatinga, apesar de já haver ampla difusão dos ILP (Integração Lavoura e Pecuária) nas regiões Sul e Centro-Oeste, na recuperação de áreas que começavam a sofrer degradação por conta da de expansão das fronteiras agrícolas. Nesse contexto, foram desenvolvidos  o Sistema de Plantio Direto, o “Barreirão” e  a “Santa Fé”.

A introdução da ILPF em um sistema sustentável, como é o caso do CBL (Caatinga-Buffet-Leguminosa), é imperativo pois as áreas onde foram recomendadas as pastagens cultivadas requerem introdução de componente arbóreo para uso, como silvopastoril, ou até mesmo para a recuperação dessas pastagens que podem ter sofrido algum grau de degradação com o superpastejo. Os cultivos consorciados ou rotacionados também são importantes quando
da implantação de um sistema CBL.

 


 

PRS Caatinga – Sendo o sistema CBL um ILPF específico para a Caatinga, como os pesquisadores chegaram a essa combinação?

Salete De Moraes Essa pergunta é muito interessante pois muitas pessoas acreditam que o CBL foi recomendado de forma simplista, o que não é verdade. Grande parte dos estabelecimentos pecuários à época foram analisados pelo Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semi-árido (CPATSA) quanto ao zoneamento climático, tipos de solos e classes de aptidão agrícola, resultando em uma recomendação para diferentes regiões e características já mencionadas. 

 

PRS Caatinga – Em que momento, de que forma, a pecuária é introduzida no sistema CBL? 

Salete De Moraes Esse sistema foi concebido pensando exatamente na produção animal, ou seja, a pecuária. O que nós vemos hoje, no entanto, são problemas recorrentes por conta do manejo equivocado do número de animais por hectare –  o que chamamos de “taxa de lotação”. Aliado a isso, vários conceitos de como manejar o pasto ou o cuidado com os nutrientes do solo são negligenciados, aumentando o risco de degradação das pastagens, tanto nativas quanto cultivadas. Hoje, no Brasil, estima-se que aproximadamente 70 a 80% das pastagens apresentem algum grau de degradação.

A recomendação para aplicação do sistema CBL é que a recuperação – com a inserção de espécies arbóreas ou substituição das forragens por espécies mais resilientes – seja  em pequenas áreas, de forma escalonada, pois o produtor normalmente não pode ficar com grandes áreas em descanso e comprometer a atividade pecuária. Quanto às áreas de produção de volumosos, os plantios dão lugar às forrageiras perenes e espécies mais adaptadas às condições de semiaridez. Já em áreas de inserção de árvores, precisamos de componentes arbóreos que se consolidem em aproximadamente dois anos depois de estabelecidas.

 

VANTAGENS DO ILPF

Produção

  • Aumenta e diversifica a produção de grãos, fibras, carne, leite e produtos madeireiros e não madeireiros
  • Melhora o bem-estar animal por conta de conforto térmico
  • Otimiza e intensifica a ciclagem de nutrientes no solo
  • Melhora a qualidade e conservação das características produtivas do solo
Meio Ambiente

  • Maior eficiência de utilização de recursos naturais
  • Reduz a pressão sobre a abertura de novas áreas com vegetação nativa
  • Mantém a biodiversidade e sustentabilidade da agropecuária

Desvantagens: Atualmente, o sistema CBL não traz os critérios dos sistemas integrados do tipo ILPF.

 

Conheça nossa entrevistada: 

Salete De Moraes, pesquisadora da EmbrapaSalete de Moraes – Possui graduação em Zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa (1997), mestrado em Zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa (2002) e doutorado em Ciência Animal pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente é Pesquisadora A da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária na unidade do Centro de Pesquisas do Trópico Semiárido em Petrolina – PE, atuando na área de Sistemas de Produção Sustentáveis e subárea Sistemas Agropastoris com enfoque em integração lavoura-pecuária e forragicultura. 

 

 

Para saber mais: 

BALBINO, L. C.; BARCELLOS, A. de O.; STONE, L. F. (Ed.). Marco referencial: integração lavoura-pecuária-floresta. Embrapa, Brasília, 2011. Disponível em <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/103901/1/balbino-01.pdf>

GUIMARÃES FILHO, C.; SOARES, J.G.G; RICHE, J.R. Sistema Caatinga-Buffel-Leucena para Produção de Bovinos no Semi-árido. Petrolina, EMBRAPA-CPATSA. 1995, Circular Técnica no 34. Disponível em <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/CPATSA/7307/1/CTE34.pdf>

TAVARES, Bruna G.; GUIMARÃES, Giselle P.; ANTUNES, Vanina Z. Tecnologias Agrícolas de Baixa Emissão de Carbono no Brasil e no Bioma Caatinga. Relatório Técnico. Projeto Rural Sustentável Caatinga (PRS Caatinga). Rio de Janeiro: Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), 2020.