Entrevista: A invenção da Caatinga como floresta seca e produtiva  

Patrisia Ciancio | 17 de julho de 2021

Confira o bate-papo para entender que, ao  contrário do que se pensa, floresta seca é vida

De Euclides da Cunha à energia eólica, a desconstrução do estereótipo da Caatinga como Floresta Seca – morta e improdutiva – se faz urgente para que a sociedade entenda o valor estratégico do bioma para fins econômicos, culturais, sociais e bioecológicos – o que passa essencialmente pela sua preservação e valorização. É o que o biólogo e professor da Universidade Federal de Pernambuco Felipe Melo chama de “Invenção da Caatinga”. Nesta entrevista, o estudioso faz uma análise da maior floresta seca da América Latina para lembrar o Dia de Proteção às Florestas, comemorado em 17 de julho. As duas principais ameaças para a Caatinga hoje são a expansão da agricultura irrigada e o manejo pouco sustentável da vegetação como fonte de biomassa para combustível, na visão de Melo. “A Caatinga é também uma floresta de pessoas”, define o especialista, que na pluralidade e diversidade do bioma prefere chamar de “As Caatingas”, em suas marcantes variações e manifestações de existência.

 

A Caatinga é a maior floresta seca da América Latina, ainda pouco estudada e reconhecida. Em contrapartida, estamos na Década da Recuperação de Ecossistemas estabelecida pelas Nações Unidas. Como conciliar a urgência de preservação do bioma com a falta de conhecimento pela sociedade?

Imagem: João Vital

A Caatinga é um ecossistema único, exclusivamente brasileiro. É a maior floresta seca da América Latina e o único ecossistema que está totalmente circunscrito às fronteiras brasileiras. Todos os demais ecossistemas a gente de alguma forma compartilha com outros países. Ela é uma responsabilidade exclusivamente brasileira. No entanto, eu atribuo o seu desconhecimento a uma certa defasagem institucional acadêmica que havia no Nordeste do Brasil e ao baixo interesse dos centros de pesquisa, que havia ao longo de décadas. Isso mudou, de 20 anos para cá, excelentes grupos de pesquisa se estabeleceram nas universidades do Nordeste e nós começamos a pagar essa dívida histórica, de desconhecimento, de estereotipagem, que agora está sendo refeita. Eu gosto de chamar de um trabalho de invenção da Caatinga.

A Caatinga foi inventada no passado por quem a olhava desde longe. A primeira grande invenção da Caatinga foi a obra de Euclides da Cunha, que separa a Caatinga em três dimensões: o homem sertanejo, que guarda essa relação de dependência e manejo do ecossistema. A natureza, até hoje desconhecida e ainda mal compreendida pela própria ciência; o seu manejo e a sua recuperação. E a luta, do caatingueiro, que continua ativa na necessidade de desconstrução da estereotipagem do que é seco, morto, de pouca vida.

A Caatinga é um ecossistema generoso, porque provê recursos naturais para a sobrevivência de 26 milhões de pessoas que moram nos seus domínios. Apesar de seca, possui grandes rios, e talvez o mais importante que é o Rio São Francisco, que produz energia. Também a Caatinga hoje é um polo de energia eólica, 85% da energia eólica do Brasil é produzida dentro da Caatinga e é uma grande academia do bom viver entre as pessoas e a natureza. O sertanejo tem há séculos uma maneira de conviver com a Caatinga, ter um bom viver, reproduzir sua cultura, gerar novas, inventar, inovar. Tudo com a Caatinga.

 

Como podemos relacionar as florestas secas às questões climáticas globais?

Imagem: João Vital

A mudança climática vai muito além do carbono. O mais importante é a relação direta que teremos com os ecossistemas. Os ecossistemas são responsáveis pelo bem-estar humano porque eles provêm serviços. E a Caatinga é um dos ecossistemas que provê maior quantidade de serviços diretos para as pessoas. Temos 26 milhões de pessoas usando a Caatinga de maneira mais ou menos sustentável, por séculos. A Caatinga que dá de comer ao bode, onde está 95% do rebanho caprino do Brasil. Nos oferece uma variedade de cultivares de milho, feijão, adaptados à seca. E a farmacopéia brasileira que as pessoas foram criando ao longo do tempo. Tudo isso faz parte das contribuições da Caatinga.

Quando a gente observa as mudanças climáticas, temos que entender que são 26 milhões de pessoas atualmente suscetíveis a migrações forçadas, quebra na produção agrícola, insegurança alimentar, saúde e questões econômicas e sociais que vão ser afetadas fortemente, uma vez que os cenários de mudança climática se cumpram para a Caatinga. Cenários que preveem aumento da sazonalidade, secas mais severas e eventualmente inundações. Chuvas muito severas, que são danosas para o ecossistema da Caatinga. A gente pensa muito em carbono, mas hoje eu prefiro pensar nos benefícios diretos de todas as florestas, incluindo aquelas que têm muito carbono. E a Caatinga, apesar de não ter muito carbono em quantidade absoluta, ela fixa mais carbono do que emite. O que é muito importante.

Saiu recentemente um estudo interdisciplinar aqui do Nordeste mostrando que a Caatinga tem um balanço positivo no seu ciclo de carbono. Ela captura, fixa e detém esse carbono até muito mais do que outras florestas úmidas, que de acordo com épocas do ano, podem ter balanços negativos, emitir mais por transpiração do que fixação. Isso ecoa no nessa agenda climática global porque qualquer floresta seca do mundo tem características similares às da Caatinga. Mais de 2 bilhões de pessoas vivem em regiões secas e muitas culturas praticam o mesmo tipo de manejo, em termos gerais.

As duas principais ameaças para a Caatinga hoje são a expansão da agricultura irrigada e o manejo pouco sustentável da vegetação como fonte de biomassa para combustível, sobretudo para as olarias, mas principalmente para o polo gesseiro que fica na região do Araripe, que é a maior jazida gipsita do planeta. Todo o cimento que está nas nossas casas contém componente dessa jazida que consome enorme quantidade de biomassa vegetal, através de planos de exploração. De um manejo florestal nem sempre fiscalizados, que têm causado degradação para a Caatinga.

 

Nesse cenário, qual é a importância do uso das tecnologias de baixo carbono?

A gente precisa de tecnologia de baixo carbono para o planeta e para a economia como um todo. No caso da produção rural na Caatinga, precisamos de tecnologias que reduzam a degradação crônica, que é a retirada de porções da biomassa da floresta em pequenas quantidades, porém de maneira constante. Por exemplo, o estabelecimento de políticas de segurança energética para a população rural que reduzam a sua dependência da floresta nativa para lenha; o manejo de espécies exóticas que estão hoje proliferando na Caatinga, como a algaroba. Essa pode ser considerada uma tecnologia que tem vários benefícios porque ao mesmo tempo que reduz a pressão sobre a vegetação natural, tem uma espécie exótica sendo explorada no lugar dessa vegetação com utilidade para fazer cercas, construção e queima como combustível de lenha, que é a principal fonte energética para as populações rurais da Caatinga. Essa pode ser uma das principais ações dessas tecnologias.

Por outro lado, temos métodos de produção agroflorestal e orgânicos que favorecem e são estimulados a atender os mercados locais. Que esse alimento produzido na Caatinga possa ser consumido dentro das cidades, nas Caatingas, evitando que a pegada ecológica dessa produção agrícola aumente com o transporte de longas distâncias. A Caatinga tem uma rede de estradas para distribuir produção. Outra coisa importante: a gente tem a caprinocultura na Caatinga, que é praticada de maneira extensiva. Estamos entendendo melhor os efeitos e vemos que os impactos não são tão grandes. No entanto, a gente tem, culturalmente, a ideia de que a carne de bode ou é uma iguaria ou uma carne menos nobre, consumida por pessoas que estão mais vulneráveis.

Sei que o PRS Caatinga fez um levantamento da cadeia de produção da caprinocultura no sertão – esse é um dos principais focos para estimular as tecnologias de baixo carbono. Ou seja, o manejo adequado da caprinocultura pode fazer com que tenhamos uma produção de proteína animal na Caatinga de maneira sustentável, que conviva com a floresta, e evite a emissão desses gases. No caso do gado é pior, porque envolve desmatamento e ainda há muita emissão ligada a sua cadeia produtiva. O bode não, o bode convive com a Caatinga, come, se alimenta de Caatinga e é basicamente consumido internamente. Essa proteína tem muito menos impacto de pegada de carbono do que a proteína de carne bovina.

 

No que diz respeito à degradação promovida na Caatinga por outros processos, como a produção de energia eólica. Como tornar essa atividade mais sustentável?

Imagem: Gisele Parno

Precisamos de uma mudança forte na política de promoção da energia eólica e da própria cultura empresarial das companhias eólicas. Já se acumularam evidências de diversos impactos, tanto naturais, quanto sociais, do estabelecimento dessas usinas eólicas na Caatinga. Alguns deles são deslocamento de pessoas, cerceamento de acesso a áreas, contratos abusivos de locação de propriedade para estabelecimento das torres, poluição visual, mudanças na legislação ambiental dos estados que são responsáveis pelo licenciamento ambiental desses empreendimentos. A gente documentou isso em um artigo em 2019, mostrando que existe uma série de conflitos que precisam ser superados para que as companhias eólicas que vendem energia sustentável verde, em face de uma estratégia de economia de baixo carbono, possam contribuir com uma estratégia de apoio e conservação. De compromisso com a conservação do Semiárido.

Acho que já estamos atrasados em sentar com esse setor produtivo e negociar ações afirmativas de proteção à Caatinga, visto que 85% do potencial eólico instalado e futuro do Brasil se encontra dentro dos domínios da Caatinga. Vamos aumentar a produção eólica e ela vai acontecer na Caatinga. Por isso, a Caatinga precisa receber os benefícios de mais esse serviço que ela presta. Toda política pública é fruto da sociedade organizada e dos setores interessados. O setor eólico já recebeu uma quantidade enorme de benefícios econômicos, fiscais para se estabelecer na Caatinga e está na hora de ser mais transparente, sobretudo na parte da compensação aos danos causados, e não temos muito acesso sobre como esses danos estão sendo compensados. Na verdade, precisamos ir muito mais além do que a compensação do dano, ser mais propositivo. Para isso a gente precisa de articulação política, precisa da presença das instituições, das ONGs, da sociedade, num diálogo proativo. Governos que defendam mais interesses coletivos. Precisamos de compromisso público dessas instituições para que isso aconteça.

 

No Dia de Proteção às Florestas, que mensagem deixaria para marcar essa importante data do calendário ambiental?

Imagem: João Vital

No fundo, a Caatinga são “as Caatingas”. Temos desde florestas altas, de grande porte, até campos abertos, áreas de afloramento rochosos, dunas, áreas de dominância monoespecífica de algumas espécies como as Carnaúbas do Ceará, os Babaçuais do Maranhão. A Caatinga são muitas Caatingas e acho muito pouco essa obsessão que a gente tem por reduzi-la a uma floresta, a uma savana. São “as Caatingas” e todas têm a sua utilidade, a sua importância tanto biológica quanto humana e precisamos reconhecê-las. A diversidade das Caatingas faz parte da definição atualizada do que é esse ecossistema exclusivamente brasileiro.

Deixaria a mensagem de que a Caatinga é uma floresta de pessoas também. É uma das florestas que têm uma das maiores quantidades, junto à Amazônia, de pessoas que criam, vivem e reproduzem a sua cultura ligadas àquele ecossistema, àquelas águas, àqueles rios, àqueles animais. A gente tem que valorizar essa diversidade das Caatingas que alimentam e provêm base material para o desenvolvimento dessa cultura maravilhosa do sertanejo, que é tipicamente brasileira.

Referências:
Marlon Neri, Davi Jameli, Enrico Bernard, Felipe P.L. Melo, Green versus green? Adverting potential conflicts between wind power generation and biodiversity conservation in Brazil, Perspectives in Ecology and Conservation, Volume 17, Issue 3, 2019, Pages 131-135, ISSN 2530-0644, https://doi.org/10.1016/j.pecon.2019.08.004 (https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064419300537)