Por dentro das #TecABC na Caatinga: Manejo de Dejeto de Animais (MDA)

Patrisia Ciancio e Anne Clinio | 9 de dezembro de 2021

O MDA é uma tecnologia de baixo carbono acessível, mas que depende de capacitação e crédito

O Manejo de Dejetos de Animais (MDA) é uma tecnologia social e também de baixa emissão de carbono que se destaca pela redução significativa de emissão de Gases de Efeito de Estufa (GEE) e viabiliza maior segurança energética para as famílias. Além disso, pode ser facilmente implementada se o agricultor for capacitado para colocar o sistema em prática. Um alcance ainda limitado, já que a baixa adesão ocorre, em grande parte, por falta de acesso ao crédito. 

“Como já existem diversas iniciativas para uso do MDA como tecnologia social, se for difundida em larga escala entre os pequenos produtores, pode haver uma redução significativa na emissão de gases de efeito estufa pelos dejetos”, disse a consultora do PRS Caatinga Vanina Antunes, que nesta entrevista para a série especial #TecABC na Caatinga fala sobre as vantagens e viabilidades da técnica. 

   

PRS Caatinga: Poderia traçar um panorama geral do Manejo de Dejetos de Animais e da Pecuária Verde na Caatinga?

Vanina Antunes: De forma geral, a vegetação da Caatinga é usada para a alimentação dos rebanhos, tanto para pastar como por meio da produção de feno e de silagem. Mas para isso acontecer é importante que se faça um manejo adequado da vegetação para que ela forneça alimento para os animais durante o ano todo. Existem técnicas específicas de poda e com o material podado é feito o feno ou silagem. Além disso, é necessário controlar o acesso do rebanho à Caatinga, isolando algumas áreas para que a vegetação se regenere. Quando os rebanhos estiverem no curral, ou para rebanhos que são criados de forma intensiva, é possível fazer o manejo de seus dejetos tanto para compostagem quanto para abastecer biodigestores, que vão produzir adubo e biogás, respectivamente. O MDA dá o destino correto aos rejeitos e ainda possibilita retorno financeiro ao produtor.

 

O QUE É UM BIODIGESTOR?

Foto: João Vital

“O Biodigestor é uma tecnologia social que produz biogás a partir de esterco animal, o qual é utilizado em fogões para a preparação da alimentação familiar. Tem grande relevância devido a sua simplicidade de manutenção e manejo, baixo custo econômico de instalação, substituição do gás butano pelo biogás, redução de emissão de gás metano e gás carbônico na atmosfera e produção de adubo orgânico e biofertilizante. O biodigestor é uma estratégia eficiente de redução do desmatamento e consequentemente da desertificação, além de se caracterizar como uma ação mitigadora dos efeitos das mudanças climáticas. Ele gera autossuficiência energética das famílias para a preparação de sua alimentação.”


Fonte: Fundação Banco do Brasil, Transforma! Rede de Tecnologias Sociais. Disponível em https://transforma.fbb.org.br/tecnologia-social/biodigestor-sertanejo

 

PRS Caatinga: Quais são as contribuições do manejo de dejetos para o meio ambiente e os desafios a serem vencidos para sua implantação?

Vanina Antunes: A maior contribuição ambiental da chamada Pecuária Verde é a preservação da Caatinga, tanto de sua vegetação como também da fauna, estrutura do solo e serviços ecossistêmicos. Na Caatinga, há uma tradição de criar o rebanho de modo extensivo (se alimentando da vegetação nativa) e muitos sertanejos sabem da importância em se manter a Caatinga em pé. Ainda assim, há quem desmate a vegetação e faça queimada pois ainda há a crença de que é melhor “limpar a área” e plantar pasto. Acredito que a mudança desta conduta seja um desafio que, com capacitação e troca de experiências, será vencido. Outro desafio é aprimorar o planejamento do estoque de feno ou silagem para minimizar a complementação alimentar com milho nos períodos de confinamento do rebanho.


PRS Caatinga: Qual seria a relação entre a alimentação de ruminantes com o MDA e como elas podem trabalhar juntas para diminuir as emissões de GEE?

Vanina Antunes: Há uma forte ligação entre o manejo da alimentação de ruminantes e o MDA, visto que ambos fazem parte de uma mesma produção, a pecuária. O MDA seria o destino final adequado à criação de ruminantes. Mas para que as duas tecnologias estejam interligadas é necessário, primeiramente, que o rebanho seja criado de forma intensiva ou semiextensiva, possibilitando a  coleta dos dejetos. Com este pré-requisito garantido, o produtor implementa o tipo de MDA que for mais adequado ao seu uso, reutilizando os dejetos e evitando que estes se decomponham no ambiente, emitindo gases como o óxido nitroso (N2O), que dura cerca de 100 anos na atmosfera.

 

SISTEMA DE BIODIGESTOR

TORRES ET AL., 2011.

Fonte: TAVARES, Bruna G.; GUIMARÃES, Giselle P.; ANTUNES, Vanina Z. Tecnologias Agrícolas de Baixa Emissão de Carbono no Brasil e no Bioma Caatinga. Relatório Técnico. Projeto Rural Sustentável Caatinga (PRS Caatinga). Rio de Janeiro: Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), 2020.


PRS Caatinga: Que tecnologias fazem parte do MDA e para serem consideradas TecABC, há alguma escala de utilização dos dejetos nas propriedades?

Vanina Antunes: Os dois tipos de MDA são a compostagem e a biodigestão. Elas funcionam à base de dejetos de ruminantes e de outros rebanhos, como suínos, e demandam a utilização de uma quantidade abundante de água. 

A compostagem consiste em acomodar o dejeto no solo, sobre um plástico, e por cima, cobri-lo com folhas e palha das lavouras. É preciso adicionar água para que mantenha o ambiente úmido e favorecer a decomposição deste material em composto.

Na biodigestão, os dejetos são colocados no biodigestor, câmara fechada na qual sofrem fermentação anaeróbia, produzindo o gás metano e biofertilizante, que pode ser utilizado na produção agrícola. 

Para essas tecnologias serem consideradas de baixa emissão de carbono, elas têm que ser produzidas em uma escala que abasteça toda a produção da propriedade, reduzindo efetivamente a emissão de GEE. Elas devem ser utilizadas, por exemplo, para aquecimento da criação animal, eletricidade, durante a cocção de alimentos para consumo próprio, entre outros fins.


PRS Caatinga: Sabe-se que para utilização de biodigestores são necessárias quantidades consideráveis de água, até que o sistema se estabilize. E mesmo depois, a necessidade de água continua presente no processo. O que poderia comentar sobre essa questão?

Vanina Antunes: Realmente, a demanda de água por esta tecnologia pode ser um obstáculo em algumas regiões mais secas do semiárido. Ela se torna inviável se o produtor não tiver alguma tecnologia social de acesso à água, como uma cisterna, associada ao biodigestor. 

 

“Biodigestores são equipamentos simples, rústicos e eficientes, capazes de produzir gás metano a partir da decomposição anaeróbica da matéria orgânica. Nesse vídeo, você confere um modelo adaptado às famílias agricultoras familiares e disseminado pelo SERTA – Serviço de Tecnologia Alternativa.”

 

PRS Caatinga: O MDA é uma tecnologia acessível aos pequenos agricultores?

Vanina Antunes: Os dois tipos de MDA, compostagem e biodigestão, podem ser adotadas pelo pequeno agricultor, desde que ele tenha acesso à informação, tanto por capacitação, projetos ou de forma espontânea, na troca de saberes entre produtores. Por conta da dificuldade de acesso ao crédito para sua implementação, muitos produtores constroem seu próprio biodigestor para uso residencial. Nesses casos, basta aumentar o tamanho e a escala para se alcançar uma efetiva redução da emissão de GEE. Como existem diversas iniciativas no semiárido para uso destes dois tipos de MDA como tecnologias sociais, se forem difundidos em larga escala entre os pequenos produtores, pode haver uma redução significativa na emissão de GEE pelos dejetos.

 

VANTAGENS

DESAFIOS

  • Gera autossuficiência energética.
  • Diminui a dependência da compra do botijão de gás ou carvão, promovendo economia para família que pode alocar recursos em outras demandas.
  • Contribui para a preservação ambiental, reduzindo a extração de lenha para preparo de alimentos.
  • Evita emissão de GEE presentes no esterco, que passam a ser acondicionados no biodigestor e queimados no fogão.
  • Melhoria da saúde das pessoas, especialmente de mulheres que assumem a responsabilidade de cozinhar e anteriormente eram expostas a fumaça da queima da lenha.
  • Melhoria da saúde dos animais com retirada do esterco dos currais e redução de moscas.
  • O plantio e a produção de alimentos fortalecida com o uso do biofertilizante.
  • Demanda de água abundante.
  • Dificuldade de acesso ao crédito para sua implementação.


Sobre a entrevistada:

Formada em Ciências Biológicas pela UNESP, Gerente de Projetos de Especialização em Desenvolvimento Sustentável na Itália; Doutoranda no Programa de Planeamento Energético da COPPE-UFRJ com a temática de Tecnologias Agrícolas de Baixo Carbono. Tem mais de 20 anos de experiência em projetos ambientais e com pequenos agricultores. Atuou como gerente de projetos no Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e no Instituto BioAtlântica (IBio) e como consultora ambiental para a Embrapa e para empresas que necessitam de avaliação de impacto ambiental de seus empreendimentos. Consultora do PRS Caatinga (2020-2021).

 

Saiba mais: 

DIACONIA. Cartilha 12 passos para construir um biodigestor. Recife: 2017. Disponível em https://issuu.com/diaconiabrasil/docs/12_passos_para_construir_um_biodige

DIACONIA. Manual do Biodigestor Sertanejo. Recife: 2011. Disponível em https://issuu.com/diaconia_web/docs/manual_do_biodigestor/3

FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL. Biodigestor Sertanejo. Banco de Tecnologias Sociais (FBB).  disponível em https://transforma.fbb.org.br/tecnologia-social/biodigestor-sertanejo