Agricultora Maria Silvanete Lermen

Conhecimento para segurança alimentar e soberania

Patrisia Ciancio | 28 de julho de 2021

Conheça Maria Silvanete Lermen, agricultora e aluna do Programa de Capacitação em Tecnologias de Baixo Carbono

Aos seis anos ela se escondia debaixo da mesa para espiar as reuniões dos movimentos sociais em defesa dos trabalhadores rurais e aos oito anos fez o seu primeiro remédio à base de ervas. Maria Silvanete Benedito de Souza Lernem, que hoje vive na Serra dos Paus Dóia, no Sul de Pernambuco, é agricultora, benzedeira, raizeira, educadora popular, orientadora em saúde comunitária e pesquisadora de saberes e vivências dos povos. No Dia do Agricultor, comemorado em 28 de julho, o PRS Caatinga conta essa história de luta e amor pela terra no semiárido.

Foto: João Vital

Como representatividade da força feminina no campo, hoje com 46 anos, Silvanete participa ativamente do Fórum de Mulheres do Araripe, da Rede Saúde da Mulher Campo-Cidade, faz parte também da Rede de Apoio a Mulheres Agroflorestoras (Rama), com atuação em todo o país. Mãe de quatro filhos (Jefferson, 22 anos; Pedro, 17; Fernanda, 13 e Débora, 7) e esposa de Vilmar, ela ensina aos seus que em casa todos devem colaborar, segundo suas idades e habilidades. E passa para a nova geração os valores de ser um agricultor, de pertencer ao campo.

Atuante na Agrodóia – Associação dos(as) Agricultores (as) Familiares da Serra dos Paus Dóias, Silvanete explica que no meio rural existe um estereótipo a ser vencido, “de que o campo é um ambiente de pessoas atrasadas”. Por isso na Agrodóia ela trabalha também a autoestima das crianças, com esse olhar de orgulho ao pertencimento, a questão das origens e da ancestralidade. “Tem meninos que me chamam de mãe, eles dizem que aqui é um verdadeiro laboratório de vivências”.

Das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) ao grupo de jovens sindical, desde muito nova Silvanete discute a realidade de vida do agricultor; e gosta disso. “Para nós, enquanto agricultores, a maior importância é saber que conseguimos produzir o nosso próprio alimento”. Saber como plantou, preparou, manuseou e colheu, ao mesmo tempo, socializar com quem chega. O sentido disso para Silvanete é segurança alimentar e soberania.

 

Falas da vida e realidade, nas palavras de Silvanete

 

Foto: João Vital

– Ainda é construído na mente dos nossos filhos o campo como um ambiente em que não há desenvolvimento. Ainda é passado fortemente que o conhecimento está nas grandes cidades. E isso chega a um ponto que tudo o que você vende não tem valor. Tudo aumenta, mas o seu preço é estagnado. É como se você fosse condenado, castigado a ter aquele valor. Isso não passa autoestima para quem quer continuar no campo. Percebo muito a dificuldade da comercialização dos produtos.

“Temos uma grande biodiversidade enquanto Caatinga, uma riqueza enorme que não se abriu para ser estudada de fato, que está se acabando sem nem ter sido pesquisada. O nosso potencial enquanto alimentos, que é farto, é muito grande, além da geração de trabalho e renda”.

Silvanete é uma dos 600 alunos do Programa de Capacitação em Tecnologias Agrícolas de Baixo Carbono, que o PRS Caatinga oferece em conjunto com a Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). Ela conta como está sendo essa experiência.

– Conheci o PRS Caatinga em debates e encontros enquanto Agridóia. Vemos o projeto como uma construção em conjunto do saber, pois ora você é aluno, ora você está partilhando sua vivência. As aulas, para mim, foram uma viagem no tempo, como se eu mergulhasse em um túnel, de diversidade de assuntos, temáticas que são necessárias de serem discutidas. Veio na hora certa. Quando fui selecionada eu senti uma emoção muito grande de entrar nessa turma. Eu estava há muito tempo sem estudar. Vemos com a pandemia as possibilidades que se abriram da construção do conhecimento e políticas públicas através das redes sociais: do anúncio, da denúncia.

E complementa:

– Para mim foi ótimo ocupar esse espaço enquanto agricultora, enquanto mulher, enquanto negra. Foi romper determinadas barreiras. O processo de educação universitária ainda é muito excludente e ele tem que dar voz aos povos. A pandemia fez isso, criou estruturas e saídas para dizer que podemos, podemos sim. Outra coisa magnífica desse curso é trazer as experiências dos agricultores para dentro da roda, do debate. Tinha momento que aluno era aluno e tinha momento que aluno também era educador. Por vezes todos estavam nos mesmos patamares. O curso do PRS Caatinga vem trazer esse portal de conhecimento que é possível, e que nós enquanto povos queremos.