Biodiversidade na Caatinga: ex-secretário da Convenção Sobre Diversidade Biológica propõe estratégias

Patrisia Ciancio | 22 de maio de 2022

Bráulio Souza Dias faz uma análise dos esforços que precisam ser feitos para conservação e bioeconomia

A biodiversidade da Caatinga tem como característica central a sua constante adaptação a estresses climáticos – o que a torna única e um patrimônio nacional sem precedentes -, tanto no contexto da ecologia de resiliência, quanto pela sua capacidade de se recuperar ante os períodos de seca. Ao longo de décadas, as iniciativas governamentais para o bioma promoveram investimentos focados em prover recursos hídricos na região. No entanto, o professor da Universidade de Brasília (UnB), Bráulio Ferreira Souza Dias, defende iniciativas que vão além, considerando que o futuro da Caatinga está na valorização da sua heterogeneidade biológica. 

Souza Dias, que trabalhou para as Nações Unidas como Secretário Executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica, propõe uma série de soluções e esforços para combater o acirramento da desertificação no bioma em razão das mudanças climáticas. O pesquisador também aponta para a necessidade de se criar caminhos para a bioeconomia por meio do resgate do conhecimento ancestral combinado às novas tecnologias, como as de baixo carbono, e a capacitação e formação de jovens empreendedores locais. Há ainda oportunidades importantes, e pouco exploradas, a partir da comercialização de produtos genuínos da Caatinga em mercados consumidores nacionais e internacionais mais exigentes em relação à questão da sustentabilidade. 

“Os modelos indicam que nas próximas décadas haverá um clima cada vez mais próximo de ecossistemas áridos, dos desertos, na região da Caatinga. A situação do estresse hídrico vai se agravar e a grande questão é como enfrentar esse quadro pela conservação da biodiversidade”, destaca o estudioso.

 

Ideias para a bioeconomia a partir da biodiversidade do bioma

O potencial da biodiversidade da Caatinga, com agregação de valor a produtos de espécies nativas – e muitas vezes únicas -, poderia gerar um mercado que movimentaria a bioeconomia na região, que, por sua vez, fomentaria uma produção sustentável e regenerativa. 

– É preciso explorar o potencial da biodiversidade nativa usando ciência e tecnologia, agregando valor por meio de diferentes processos de beneficiamento que aumentem a qualidade dos produtos. Por exemplo, produtos de espécies nativas da Caatinga que podem fornecer matéria e produtos de valor agregado para a indústria de alimentos, cosméticos, bebidas e mesmo para a indústria de biocombustíveis, com a diversificação das fontes de geração de biocombustíveis da região. Isso tem um potencial enorme! O Brasil tem indústrias sofisticadas que poderiam ser grandes compradoras de produtos da biodiversidade da Caatinga. Unir o conhecimento de populações tradicionais, indígenas e outras comunidades que têm conhecimento da biodiversidade nativa, com a sofisticação do conhecimento das universidades e dos institutos de pesquisas, para fazer chegar à indústria opções de produtos de alto valor agregado que aumentariam a renda para os produtores da região da Caatinga -, disse Souza Dias.

Segundo o professor, as espécies endêmicas, que só ocorrem na Caatinga, poderiam gerar produtos únicos, comercializados em todo o Brasil e exportados para outros países e, cujo retorno econômico seria reinvestido no bioma. “Mas isso exige políticas públicas para fazer os investimentos em Ciência e Tecnologia, para capacitação das populações, resgate dos conhecimentos das populações tradicionais. Também seria necessário promover a capacitação dos jovens da região para o empreendedorismo de modo que eles criem suas pequenas empresas a partir do potencial de biodiversidade da Caatinga”, concluiu.

 

12 ESTRATÉGIAS PARA CONSERVAR A BIODIVERSIDADE DA CAATINGA

  1. Reduzir a emissão de Gases de Efeito Estufa de maneira combinada com a ampliação da restauração de seus ecossistemas.
  2. Realizar um esforço de restauração ecológica das áreas mais degradadas para ampliar a cobertura florestal.
  3. Modificar práticas agrícolas e de criação de animais.
  4. Reduzir a densidade de animais e promover suplementação da sua alimentação para reduzir a pressão sobre o pastoreio – o que dificulta o crescimento de plantas jovens no processo natural de regeneração da Caatinga.
  5. Investir em “land sparing” (poupar terra) e reservar áreas com ecossistemas naturais, com vegetação nativa da Caatinga para priorizar a preservação. Nestes casos, normalmente, é necessário desapropriar terras para estabelecer unidades de proteção integral como parques nacionais, estações ecológicas e reservas biológicas.
  6. Ampliar a extensão de áreas protegidas de proteção integral na Caatinga com o incentivo à proteção nas propriedades privadas por meio das Reservas Particulares do Patrimônio Natural – RPPNs.
  7. Ampliar os incentivos econômicos e fiscais, além de oferecer orientação técnica, para atrair mais proprietários de terras a criarem RPPNs.
  8. Fomentar o “land sharing” ou o compartilhamento das terras para conciliar ações de conservação e de produção, fazendo convergir produção sustentável com restauração da vegetação nativa.
  9. Tornar a atividade pecuária mais sustentável, estabelecendo com proprietários de terras um compromisso voluntário de conservação em troca de certificação ambiental que agregue valor a produtos como carne e couro.
  10. Munir os sistemas de produção florestal (madeira, lenha, e outros produtos florestais) com ações de conservação. A vegetação da Caatinga tem uma grande capacidade de regeneração e pode ser submetida a regimes de exploração madeireira com corte rotativo de tal forma que se permita, após o corte, que as plantas rebrotem e voltem a crescer, dado o tempo necessário para que ela recomponha a sua biomassa.
  11. Criar estímulos econômicos de exploração florestal sustentável das florestas nativas da Caatinga, que já estão adaptadas ao clima semiárido.
  12. Investir em pagamentos dos serviços ambientais para geração de emprego e renda nas regiões rurais. Por exemplo, com a criação de viveiros, a coleta de sementes, a demanda para manutenção e cuidado das florestas em processo de regeneração.

 

Cooperação internacional como estratégia para a Caatinga

De acordo com Souza Dias, a vegetação da Caatinga tem sofrido um processo contínuo de degradação desde o início da colonização europeia, há cinco séculos. Atualmente, existem várias áreas em processos avançados de degradação, inclusive de desertificação.

– Uma solução na Caatinga seria fazer como nos países africanos. A África tem uma incidência maior de aridez do que na América do Sul. E lá o que eles estão fazendo é criar grandes programas de restauração da vegetação. O maior deles é a Grande Muralha Verde do Sahel, que é uma região de transição ecológica do Deserto do Saara e a faixa de transição da Savana. Esse é um projeto multinacional, e com grandes corporações internacionais, que visa, com a ajuda da população, ampliar o plantio de árvores, arbustos e ervas para esverdear a paisagem com uma vegetação mais robusta para amenizar um pouco mais a aridez desta região. Essa é uma estratégia que também poderia ser aplicada na Caatinga -, ilustrou o especialista.

 

Sobre o entrevistado: 

Braúlio Souza Dias é ex- Secretário Executivo da Convenção da Biodiversidade Biológica (CBD) das Nações Unidas, ex-Diretor de Pesquisa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama) e ex- Diretor de Conservação da Biodiversidade e Secretário Nacional de Biodiversidade e Florestas, professor da Universidade de Brasília (UnB) e presidente da Fundação Pró-Natureza (FUNATURA).