375 alunos se formam como extensionistas em tecnologias de baixo carbono nesta quarta-feira (06)

Patrícia Lyra | 4 de abril de 2022

Capacitação oferecida em parceria com Univasf qualifica profissionais de assistência técnica que trabalharão com 5.500 agricultores familiares

O Projeto Rural Sustentável Caatinga (PRS Caatinga) e a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) realizam, nesta quarta-feira (06), às 14h, com transmissão da TV Caatinga, a formatura de 375 alunos do curso “Tecnologias Agrícolas de Baixa Emissão de Carbono Fortalecendo a Convivência com o Semiárido”. Parte dos profissionais formados irá prestar assistência técnica em projetos apoiados pelo PRS Caatinga em cinco estados do Nordeste, beneficiando cerca de 5,5 mil agricultores familiares no semiárido.

A cerimônia de formatura acontecerá em formato híbrido. A mesa de abertura terá a presença de representantes do Governo do Reino Unido, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) – apoiadores do Projeto.

A turma é composta por 230 alunos formandos na modalidade Capacitação e 145 como Aperfeiçoamento. Ainda no primeiro semestre haverá a formatura dos alunos que obtiveram o nível Especialização, com a entrega de diplomas de pós-graduação, reconhecidos pelo Ministério da Educação.

Oferecer formação voltada para práticas sustentáveis é uma das estratégias do PRS Caatinga para difundir as tecnologias de baixo carbono no semiárido. A iniciativa é resultado da parceria entre a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), organização executora do PRS Caatinga, e a Univasf – considerada um investimento fundamental para os territórios, tendo em vista o déficit de aplicação de recursos existente em Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) na região.

Pedro Leitão, Diretor do PRS Caatinga

– Desconheço, mesmo em outros biomas, um curso de tecnologias de baixo carbono, como estamos fazendo. Acreditamos que a melhor estratégia é formar esses profissionais em extensionismo rural e levar esses conhecimentos ao pequeno agricultor. E é isso que estamos fazendo. Estamos capacitando mais de 600 pessoas que vão promover essa transição. Temos a preocupação de trabalhar em redes. Rede é uma palavra-chave para nós. Queremos criar uma rede de especialistas e instituições que assumam essa agenda no semiárido -, afirma Pedro Leitão, diretor do PRS Caatinga.

 

 

Institucionalização das tecnologias de baixo carbono na universidade

Profa Lúcia Marisy, Coordenadora Pedagógica do curso de especialização

O curso de especialização Tecnologias de Baixa Emissão de Carbono: Fortalecendo a Convivência com o Semiárido é uma iniciativa que gera um legado estruturante na Caatinga com a renovação de quadros técnicos e a qualificação de um público diverso ligado à produção rural. Além disso, a universidade está incorporando, de maneira permanente, os conteúdos e as dinâmicas do curso no Mestrado Profissional em Extensão Rural, a partir de 2022.

Segundo a Pró-Reitora de Extensão da Univasf e coordenadora pedagógica do curso, a professora Lúcia Marisy, a preocupação foi estabelecer uma metodologia que contemplasse teoria e prática. Mercado, produção, organização, reuso de água, tecnologias de baixo carbono, Arranjos Produtivos Locais (APLs), financiamentos, entre outros temas, estão no roteiro das aulas.

– A partir deste ano, todos os alunos estão aptos para o ingresso no mercado de Agricultura de Baixo Carbono. Um legado mais do que fundamental para a sociedade, que precisa manter os níveis controlados de carbono. A inclusão das Tecnologias de Baixo Carbono no currículo do curso de Mestrado Profissional e Extensão Rural já é uma realidade. Reconhecemos a importância da formação dos nossos extensionistas nessa habilidade, com impacto significativo junto aos agricultores familiares e sobretudo em prol da conservação do planeta –, enfatizou Lúcia.

 

Assistentes técnicos qualificados atenderão crescente demanda regional

Inicialmente elaborado para cumprir a meta de qualificar 125 profissionais de ATER, a grande demanda regional e a escolha pela educação à distância possibilitou sextuplicar o número de participantes, alcançando 800 inscritos em quatro turmas ao longo de 2021. As aulas teóricas contemplaram 13 módulos e as aulas práticas incluíram visitas técnicas a instituições de referência em agricultura sustentável, tecnologias sociais e acesso a mercados.

 

Renovação dos quadros profissionais de ATER na Caatinga

Além dos 375 alunos, também serão certificadas 43 organizações prestadoras de serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER). Essas entidades foram selecionadas pelo PRS Caatinga para participar do Programa de Capacitação e encaminharam seus profissionais para integrar o processo formativo. Representando o conjunto das organizações, estarão presentes lideranças de cinco entidades beneficiadas pelo PRS Caatinga em Alagoas (Instituto Terra Viva, Ricardo Ramalho), Bahia (Associação Comunitária Terra Sertaneja, Nelson de Jesus Lopes), Pernambuco (Caatinga, Geovane Xenofonte), Piauí (Cooperativa de Trabalho de Prestação de Serviços para o Desenvolvimento Rural da Agricultura Familiar (Cootapi), Levi Saimon Monteiro) e Sergipe (Centro de Assessoria e Serviços Aos/as Trabalhadores/as da Terra Dom José Brandão de Castro (CDJBC), João Alexandre de Freitas Neto).

A qualificação de assistentes técnicos e extensionistas rurais é um investimento primordial para a promoção da agricultura de baixo carbono na Caatinga – especialmente entre associações e cooperativas que reúnem pequenos e médios produtores rurais. A pesquisa “Estudo sobre Capacitação de Assistência Técnica e Extensão Rural para Tecnologias de Agricultura de Baixo Carbono no Semiárido”, realizada pelo PRS Caatinga em 2021, aponta que o percentual de estabelecimentos rurais com acesso à assistência técnica nos 37 municípios prioritários é baixo, variando entre 0,4% em Curral Novo (Piauí) e 23,3% em Nordestina (Bahia). Este setor acumula uma perda significativa de investimentos na qualificação de profissionais e precarização dos serviços pelo enxugamento de equipes e investimentos em capacitação.

 

Alunos participam de aulas práticas

 

Investimento estratégico em educação com ênfase na diversidade

A diversidade dos alunos selecionados para participar do Programa de Capacitação abrange diferentes perfis profissionais, graus de escolaridade, idade, gênero e histórias de vida. Foram selecionados assistentes técnicos, agricultores familiares, gestores e servidores públicos, agentes ambientais e agentes de crédito, experimentadores e práticos, além de comunidades tradicionais como quilombolas, indígenas, Fundo de Pasto e vaqueiras.

A pluralidade dos alunos visa contribuir para o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 4, de promover educação de qualidade ao “assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.” Ela também contribui para um ambiente favorável à promoção de Arranjos Produtivos Locais (APLs) de baixo carbono, a partir da articulação de setores vinculados à produção rural sustentável.

 

Pedagogia inclusiva e método dialógico

Em entrevista ao PRS Caatinga, Maria Silvanete Lernem, agricultora familiar na Serra dos Paus Dóia em Pernambuco, e aluna do Programa de Capacitação comentou:

– Para mim foi ótimo ocupar esse espaço enquanto agricultora, enquanto mulher, enquanto negra. Foi romper determinadas barreiras. O processo de educação universitária ainda é muito excludente e ele tem que dar voz aos povos. A pandemia fez isso, criou estruturas e saídas para dizer que podemos, podemos sim. Outra coisa magnífica desse curso é trazer as experiências dos agricultores para dentro da roda, do debate. Tinha momento que aluno era aluno e tinha momento que aluno também era educador. Por vezes todos estavam nos mesmos patamares. O curso do PRS Caatinga vem trazer esse portal de conhecimento que é possível, e que nós enquanto povos queremos.